Tendência

Tendência, em moda, é um movimento conjunto, aparentemente autônomo, em direção a algumas escolhas estilísticas que priorizam determinadas peças, cores e texturas. Isso dito por mim, que não sou da área de moda. Certamente há definições mais precisas e melhor desenvolvidas que a minha, mas, para o argumento, essa me basta.

Digo aparentemente autônomo porque há algo muito coordenado nisso tudo. Algo que paira no ar e parece, misteriosamente, conduzir esses movimentos. Como força da natureza, sabe? Há uma lógica orgânica por trás de toda ação natural. O natural não acontece naturalmente, mas seguindo essa lógica implícita e bela.

Assim me parecem as tendências de moda e cultura. E por serem expressões culturais voltadas para a apropriação pessoal, transitam pelo território da utilidade, da necessidade e do desejo humano. Precisam dar conta de demandas reais das pessoas. Arte, arquitetura e moda são todas expressões estético-culturais que compartilham o mesmo território de experimentação: a cidade.

Mal traçando um paralelo entre tendência e essência, que, acredito, ser a dialógica que tonificará meus mal traçados versos neste ciberespaço que por hora me cabe, me vem à lembrança o mito da cabana primitiva. Fábula que todo arquiteto que se preze ouviu falar. Interpretada de diferentes maneiras ao longo da história, teve sua forma e seus elementos representados por diversos arquitetos e historiadores, resultando em expressões plásticas distintas, mas semelhantes no propósito original.

A cabana primitiva representa a essência da arquitetura enquanto construção que protege o homem e o abriga dos perigos da natureza, mas também demarca sua presença no espaço, conferindo-lhe um lugar e, simbolicamente, materializando sua existência na Terra.

Cá para nós, não é mais ou menos isso que o pretinho básico faz pelas mulheres? Para mim, ele representa a essência do vestir: cumpre totalmente a função de cobrir e proteger o corpo contra as intempéries naturais e os temperamentos humanos; e, ao mesmo tempo, marca nossa presença nos lugares, assimilando as vantagens da pele e camuflando as bobagens do tempo.

Bom, isso tudo dito acima são fragmentos das inúmeras intersecções que acredito existirem entre arquitetura, cidade e movimentos de moda. Como seres humanos e urbanos que somos, não só sobrevivemos, em essência, como nos expressamos, de acordo com as tendências do nosso tempo e de nossos humores pessoais.

Do pretinho básico ao blazer de ombreira e tafetá; da casinha branca de telha colonial ao vão livre e setores integrados das lajes nervuradas. À maneira como somos, habitamos, vestimos e nos expressamos em sociedade. Dá ou não dá pano para a manga?

Até!

Aline Cruz

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