Entre Ubers e Temers

São Paulo, Janeiro 2017

José é contador. Foi despedido e nada contava além das horas, desde então. Uma empresa oferecia trabalho. Não era a sua área, mas o salário era garantido e só dependia de preencher papéis, ter carteira e um carro próprio. Em uma semana José estava no mercado. O mesmo mercado que a um mês atrás o rejeitara.

Sérgio é aposentado. Trabalhou a vida toda com transportadora. Funcionário dedicado, não soube se adaptar a vida sem servir. Não soube não ser produtivo. Decidiu produzir autoconhecimento e fez diversos cursos que aprimoraram sua biografia e seu entendimento de mundo. Enviou currículos e não obteve respostas. Nenhuma. Em seis meses. Sergio decidiu pegar seu carro, produzir com seu tempo e seu patrimônio a dinâmica de trabalho a que estava acostumado. Hoje complementa sua renda, almoça e janta em casa com a esposa, também aposentada. Pode tirar férias quando quiser, o que pretende fazer e breve.

Carlos trabalha de 15 a 20 horas por dia. Estabeleceu uma meta de ganho diário que seu novo empreendimento precisa lhe dar com o pragmatismo característico daqueles que trabalham muito por dependerem apenas deles mesmos e dos quais muitos outros dependem.  Carlos está satisfeito. Tem muito esclarecimento sobre a economia e as condições de trabalho em seu pais. Pensa no futuro do seu negócio e em como pode ser afetado pelo equilíbrio instável do atual momento político nacional.

José gosta do Haddad. José não se vê no mesmo negócio daqui a dois anos.

Sergio não pensa no futuro. Sergio votou no Dória e espera que ele invista em infraestrutura.

Carlos se absteve de votar. Gosta do Haddad, mas não vota no PT e acredita que Dória não tem alternativa a não ser fazer uma boa administração por causa de suas ambições políticas futuras.

E eu estou em São Paulo. Usando o transporte público terceirizado. Tentando pesar prós e contras. Buscando menos interrogações e mais pontos finais sobre mobilidade urbana e seus impactos na vida das pessoas e na maior cidade do Brasil. Tarefa inglória, quando realizo as implicações diversas de um sistema de transporte público, apoiado na frágil balança oferta-demanda de serviços, por sua vez desregulada por fatores políticos e econômicos que nada tem a ver com mobilidade propriamente. Empregos se perdem e se criam e se confundem com serviços básicos que deveriam significar estabilidade, acesso e cidadania.

Satisfeita como cliente, com bons trajetos, preços e papos; otimista como cidadã, por perceber na livre iniciativa a capacidade transformadora da sociedade; e preocupada como urbanista, que compreende, mas não é capaz de mudar a vulnerabilidade dessa situação toda.

O Brasil não é para amadores. Urbanismo também não.

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