#HASHTAG

Demorei bastante tempo (tempo aqui entendido na medida i-generation, ou seja, umas 72horas) até entender qual o sentido do uso da hashtag nas postagens da população em geral. Via com uma certa preguiça aqueles rabisquinhos intermináveis e ilegíveis ocupando 2/3 das legendas e consegui ignorá-los solenemente por respeitável período. Entretanto, é como dizem: “não há mal que sempre perdure, nem bem que esteja acompanhado de #”. Certo dia, cedi.

Com minha habitual curiosidade autodidata descobri a função do sinalzinho mágico que, ao aparecer na legenda junto a absolutamente qualquer palavra, de qualquer classe, gênero ou número, independente do contexto, imediatamente te transporta para o universo paralelo de centenas de imagens que (e isso ainda continua um mistério), por algum motivo, se relacionam com o tal vocábulo.

Se tivessem deixado esta associação (# + palavra = imagem) na responsabilidade dos algoritmos talvez fizesse mais sentido. Ao menos #goodvibes para mim reuniria, de fato, imagens afins com minha interpretação do conceito; para você apareceriam imagens relativas ao seu entendimento, e por aí vai. Mas isso mudaria o princípio de funcionamento das redes sócio-promocionais e talvez o objetivo maior de todo o processo se perderia. Dilemas, dilemas!

A coisa toda degringola quando se coloca na mão de humanos um poder que eles não estão preparados para usar. Apesar de todo meu ceticismo, há algum valor (poderia haver) em um banco de imagens automaticamente organizado sob um mesmo princípio e constantemente atualizado em escala global. Ou ao menos até onde a Claro dá conta. Mas os humanos são seres estranhos e imprevisíveis, não se pode confiar neles.

Sabe-se lá porque, um belo dia algum “influencer” um tanto desorientado meteu-se a usar o hashtag acompanhado de palavras nobres, que na verdade estavam ali substituindo um belo de um “textão”, malandramente implícito no #qualquercoisa. Exemplifico: onde lê-se #reciprocidade, por exemplo, entenda-se “eu sou uma pessoa tão boa, mas tão boa, que espalho minha bondade onde quer que eu vá. Faça como eu!” Outra que sempre ganha likes é #gratidão, onde fica sugerido, de um jeito muito lindo, que “eu sou uma pessoa tão evoluída, tenho tanta energia boa para compartilhar e deixar fluir! Vem comigo!” E se não bastasse, além das palavras de ordem do momento, o hashtag tem inaugurado verdadeiros “minutos de sabedoria” online. Algo do tipo  #levantaevai , #abelezaestadentrodevoceamiga , #avidaeaartedoencontroemborahajatantodesencontropelavida .

Ora, não seria melhor citar Vinícius?

Fato é que foi-se o resquício de utilidade pública do desenhozinho! Agora ele nada mais é que uma outra forma de falarmos mais sobre nós mesmos sem parecermos tão ridículos e sem usar Emojis.

E o mais curioso é que o Instagram é uma plataforma essencialmente de imagens, não é? #sqn

Sem qualquer perspectiva de progresso num futuro imediato, melhor #irnaboa #queavidanão ébrincadeirairmão e #melhorseralegrequesertriste

Bjmeliga, Lili

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