Praticando a liberdade

Recentemente o mundo do cinema trouxe à tona um tema bastante nebuloso e com o qual nunca fez questão de lidar: o assédio sexual. Para ser mais precisa, o mundo feminino do cinema de Holywood, uma vez que os movimentos Time’s Up e Me too surgiram a partir de um grupo de atrizes americanas vindo a público para denunciar abusos sofridos nas relações de trabalho nem sempre respeitosas, mas sempre desiguais, entre mulheres e homens na indústria cinematográfica.

Como forma de expressar unidade, várias outras atrizes se juntaram ao grupo original e usaram as plataformas das grandes premiações para dar maior visibilidade aos movimentos, a partir da adoção da roupa preta como “uniforme de campanha”. Além disso, muitas levaram ativistas do movimento feminista e humanista como acompanhantes, substituindo a tradicional figura do(a) parceiro(a) amoroso(a).

Me considero uma feminista e apoio todo tipo de manifestação que busque igualdade de gênero onde é possível. Porque também não acredito que somos iguais aos homens e, particularmente, nem desejo ser. Adoro ser mulher! Posso nascer de novo mulher, feliz da vida! Mas uma cultura machista como a nossa precisa ser combatida para minimizar as distâncias históricas nas áreas em que podemos, tranquilamente, equiparar nossos papéis.

A moda como forma de expressão política não é novidade e é altamente eficiente em passar suas mensagens. Algumas semanas de moda entraram para a história por causa de manifestações sobre os mais diversos assuntos: meio ambiente, guerras, transgêneros, conflitos étnicos, tecnologia. São leituras artísticas e legitimas da realidade e suas contradições.

A cidade e seus espaços públicos são, talvez, o maior palco político de ação de seus cidadãos. As grandes transformações culturais, historicamente e atualmente, começam nas ruas, com as pessoas de carne e osso se expondo por uma causa na qual acreditam.

Neste sentido, as ruas são democráticas. Não há espaço público sem liberdade individual, mas essa liberdade precisa ser conquistada. Ela não é garantida pelo espaço, pelo projeto do espaço, nem por sua gestão. Como disse o filósofo Michel Foucault: “ A liberdade do homem jamais é assegurada pelas instituições e leis que são feitas para garanti-las. (…) Não porque são ambíguas, mas simplesmente porque a liberdade precisa ser praticada.”

Por isso, e agora vem o ponto onde eu queria chegar, para mim, mais forte que usar a cor preta foi não usar. Rejeitar o discurso pronto não por discordar dele, mas para praticar a liberdade de escolha. Nas questões de gênero, tão universais e tão pessoais ao mesmo tempo, me aproximo do filósofo francês e, mais ainda, das francesas.

Abraços e até a próxima!

Aline Cruz

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